Em Dezembro
passado aderi a um novo partido político, o LIVRE, e apoio-o nas próximas
eleições europeias. É a primeira vez que me inscrevo num partido. Fi-lo
espontaneamente algumas semanas antes da Assembleia Constituinte, em Dezembro
passado, por três razões essenciais: um, porque pela primeira vez senti alguma
consonância politico-ideológica com um partido político português; dois, pela
urgência dos problemas que se colocam hoje à sociedade portuguesa, à sociedade
Europeia em geral, e mais globalmente à humanidade; finalmente, três, porque o formato de partido político do LIVRE responde
à necessidade de participação democrática que os partidos tradicionais –
inclusive os de Esquerda – inibem pelo seu funcionamento elitista.
Um, há muito
tempo que o deslize do PS para a Direita e o entrincheiramento do Bloco de
Esquerda contra o capitalismo de qualquer estirpe têm aberto no espaço político
português um vazio de representação na Esquerda não revolucionária; e há
certamente uma grande massa do eleitorado português que se situa nesse
quadrante, no qual me incluo. Para além disso, nunca houvera uma representação
séria da sensibilidade ecologista – que me é especialmente cara – em Portugal
(para além das ONGs, de um ou outro deputado, e do PEV como anexo do PCP).
Dois, os
problemas urgentes que se colocam hoje a Portugal, à Europa, e ao mundo como um
todo, interpelam de forma muito particular estes espaços políticos da esquerda
e da ecologia. Da esquerda, porque a erosão dos ganhos sociais e económicos do
modelo social europeu (e, mesmo, de um modelo fordista semi-redistributivo
americano) tornou-se uma derrocada com a afirmação da lógica da austeridade
como resposta dominante à crise financeira
dos últimos 5 ou 6 anos. Da ecologia, porque os limites ecológicos da
sustentabilidade global das sociedades humanas se estão a tornar cada vez mais
evidentes – a todos os níveis.
Três, o formato
político actual das democracias liberais, inclusive o funcionamento interno dos
partidos políticos, fica aquém do potencial instalado de democraticidade nessas
sociedades, dado o estado actual de evolução tecnológica, científica e
educativa. O aprofundamento da participação democrática tanto nos processos
internos dos partidos como nos processos de decisão do Estado não é apenas um
valor ou um objectivo desejável. Pelo contrário, é uma necessidade cada vez
mais urgente precisamente porque as elites políticas e económicas têm-se
revelado desinteressadas e incapazes de enfrentar os problemas mais graves das
nossas sociedades. Elas carecem da participação aberta dos cidadãos nos processos
de decisão transparentes (pelo brainstorming,
pelo debate público prévio, pelos orçamentos participativos, etc) para partilharem a
responsabilidade dessas decisões, para emendarem erros, e para fundarem os
consensos que tão alto apregoam. O que o LIVRE propõe (e me levou a aderir ao
partido) é esse espaço de debate aberto e transparente (a Ágora pública, o
espaço de racionalidade plural de Habermas, todas as propostas sujeitas à
contestação) até ao limite de todas as reuniões políticas serem à porta aberta
e com livestream, e de as listas de
candidatos a eleições, quer sejam locais, nacionais, ou europeias, estarem
sujeitas a primárias abertas.
Não sei ainda que
implantação o LIVRE poderá vir a ter na sociedade portuguesa, nem que força
motriz poderá incutir à sua mudança política e social, nem que papel poderá vir
a ter no terreno de luta europeu, que é neste momento o terreno das decisões fundamentais (e isto depende em grande parte da capacidade do partido de mobilizar um eleitorado natural nas próximas eleições europeias). O LIVRE
ainda está em formação, e não tem respostas pret-à-pôrter
a todas as questões que enfrenta. Mas o método que o partido propõe interpela a
sociedade civil, sobretudo à esquerda, a intervir, a debater, a contradizer as
suas posições, a apresentar alternativas, e tudo isso em espaço aberto. Será,
no mínimo, pedagógico.
O LIVRE realizou hoje as suas primeiras primárias
abertas, para escolha da ordem da lista de candidatos às eleições europeias.
Votei no Teatro Rápido, em Lisboa. O site do LIVRE, com informações, programas,
contactos, etc., encontra-se em livrept.net
No comments:
Post a Comment