Sunday, 24 May 2015

Como lidar com os desconhecidos conhecidos: Para uma cultura política do conhecimento partilhado


A política, no seu sentido mais essencial, refere-se ao conjunto de práticas pelas quais a polis – ou um Estado a que corresponde uma comunidade – toma decisões que a permitem controlar o seu destino. Nesse sentido, é definida não apenas pelas lutas sobre recursos e sobre poder, mas também pela capacidade de quem nela está envolvido para prever as consequências das suas acções. Baseia-se não apenas em juízos morais, mas também em conhecimento. E o conhecimento é sempre limitado. Nas palavras famosas do infame Rumsfeld, lidamos não apenas com conhecidos conhecidos (coisas que estamos seguros que sabemos) e desconhecidos desconhecidos (coisas que não fazemos ideia que existam) mas também com muitos desconhecidos conhecidos (coisas que gostaríamos de saber mas sabemos que não sabemos). Na tomada de decisão política, muitos dos desconhecidos conhecidos referem-se às consequências futuras das decisões (ou seja, das políticas): se fizermos x, quanto é que obtemos de y? E que outras consequências haverá?

Porque uma grande parte do combate político se baseia em diferendos de juízo moral (ou seja, sobre o que é ‘justo’), há uma grande pressão para pelo menos parecer que se defende políticas de forma consistente. Mas as políticas raramente são expressões directas de princípios morais; pelo contrário, são normalmente meios para atingir um valor mais específico (produtividade, riqueza, justiça distributiva, harmonia social, etc.). E políticas que parecem bem desenhadas para atingir um fim específico demasiado frequentemente não têm os resultados esperados, ou têm resultados negativos inesperados. Infelizmente, no mundo político, as consequências empíricas (sociais) das políticas são avaliadas de forma demasiado ligeira e, quando são avaliadas em detalhe, os resultados nem sempre são abertos ao escrutínio e discussão públicas. Por vezes, isto acontece porque as políticas foram especificamente concebidas para promover interesses particulares à custa do interesse público. Em muitos outros casos, no entanto, é simplesmente porque é confrangedor para os decisores ter de admitir o erro: porque o sistema de decisão está concentrado e a responsabilidade não é socialmente partilhada.  

Acredito que há um modelo melhor de organizar a tomada de decisão política: a validação das ideias pelo teste, crítica mútua, e partilha de conhecimento. Isto é a concorrência no seu melhor: não a concorrência entre pessoas, mas entre ideias. É comum no empreendedorismo de ponta e na ciência, que formam comunidades de partilha de conhecimento; e é isto que mantém as sociedades tecnologicamente avançadas literalmente sobre rodas. Como poderia então funcionar esse modelo alternativo de validação empírica em política? De certa forma, já está a funcionar. As contra-elites políticas emergentes actuais, feitas de cidadãos profissionais qualificados em vez de políticos profissionais desqualificados, são densas de conhecimento científico e sequiosas de transparência; são capazes e interessadas em envolver-se em debate aberto com base na evolução e acumulação constantes do conhecimento e na sua utilização para avaliar as consequências de políticas alternativas. Recusam aceitar avaliações ideologicamente fechadas, e exigem conhecer os factos e fazer as suas próprias avaliações. E isto tanto é verdade para questões económicas, sociais, como ambientais. Foi isto que me trouxe para o envolvimento na política, e foi isto que me trouxe para o LIVRE / Tempo de Avançar* enquanto plataformas para o debate e intervenção.
* O autor é candidato às Primárias deste partido/movimento

Dealing with known unknowns: For a political culture of shared knowledge

Politics, in its most essential meaning, is the set of practices by which a polis – or a state that corresponds to a community – arrives at decisions that help control its fate. As such, it is defined not only by struggles over resources and power, but also by the ability of those involved in it to foresee the consequences of their actions. It derives not only from moral judgement, but also from knowledge. And knowledge is always limited. In the famous words of the infamous Rumsfeld, we deal not only with known knowns (things we are sure we know) and unknown unknowns (things we have no clue exist or will exist) but with many known unknowns (things we would like to know but know we don’t). In political decision-making, most of the known unknowns refer to the future consequences of decisions (i.e. of policies): if we do x, how much will we obtain of y? And what other consequences will there be?

Because a large part of political struggle is based on differences in moral judgement (i.e. what is ‘fair’), there is great pressure to at least appear to stick consistently to policies. But policies are rarely direct expressions of moral principles, but rather means to achieve some higher value (productivity, wealth, distributive fairness, social harmony, etc.). And policies that seem to be well-designed to achieve a specific end all too often do not have the expected results, or even have negative results.  . Unfortunately, in the political world, the empirical (social) consequences of policies are far too lightly assessed and, when they are assessed in detail, the results are not always open to public scrutiny and discussion. Sometimes, this is because policies have been specifically designed to further some private interests at the expense of the public interest. In many other cases, however, it is simply because it is galling for decision-makers to admit to error: because the decision-making system is concentrated and there is no sharing of social responsibility.

I believe there is a better way to organize political decision-making: the empirical validation of ideas through testing, mutual critique, and sharing of knowledge. This is competition at its best: not competition between people, but between ideas. It is common in cutting-edge entrepreneurship and in the scientific communities, which form communities of shared knowledge. This is what keeps knowledge advancing and technologically advanced societies, to put it bluntly, rolling on. So how could the alternative model of empirical validation work in politics? In a certain sense, it is already working. The emergent political counter-elites, consisting of citizens who are qualified professionals rather than of unqualified professional politicians, are heavy on scientific knowledge and thirsty of transparency; they are able and willing to engage in open debate based on ever-evolving, cumulative knowledge and its use to assess the consequences of different policy alternatives. They refuse to accept ideologically closed assessments, and demand to know facts and make their own assessments. This is true for economic, for social, and for environmental issues. This is what brought me to involvement in politics, and this is what brought me to LIVRE and now Tempo de Avançar* as platforms for debate and intervention.

* The author is a candidate in the primary elections of this party/movement