A política, no
seu sentido mais essencial, refere-se ao conjunto de práticas pelas quais a polis – ou um Estado a que corresponde
uma comunidade – toma decisões que a permitem controlar o seu destino. Nesse
sentido, é definida não apenas pelas lutas sobre recursos e sobre poder, mas
também pela capacidade de quem nela está envolvido para prever as consequências
das suas acções. Baseia-se não apenas em juízos morais, mas também em conhecimento.
E o conhecimento é sempre limitado. Nas palavras famosas do infame Rumsfeld, lidamos
não apenas com conhecidos conhecidos (coisas que estamos seguros que sabemos) e
desconhecidos desconhecidos (coisas que não fazemos ideia que existam) mas
também com muitos desconhecidos conhecidos (coisas que gostaríamos de saber mas
sabemos que não sabemos). Na tomada de decisão política, muitos dos
desconhecidos conhecidos referem-se às consequências futuras das decisões (ou
seja, das políticas): se fizermos x, quanto é que obtemos de y? E que outras
consequências haverá?
Porque uma grande
parte do combate político se baseia em diferendos de juízo moral (ou seja,
sobre o que é ‘justo’), há uma grande pressão para pelo menos parecer que se
defende políticas de forma consistente. Mas as políticas raramente são expressões
directas de princípios morais; pelo contrário, são normalmente meios para atingir um valor mais
específico (produtividade, riqueza, justiça distributiva, harmonia social,
etc.). E políticas que parecem bem desenhadas para atingir um fim específico
demasiado frequentemente não têm os resultados esperados, ou têm resultados
negativos inesperados. Infelizmente, no mundo político, as consequências
empíricas (sociais) das políticas são avaliadas de forma demasiado ligeira e,
quando são avaliadas em detalhe, os resultados nem sempre são abertos ao
escrutínio e discussão públicas. Por vezes, isto acontece porque as políticas
foram especificamente concebidas para promover interesses particulares à custa
do interesse público. Em muitos outros casos, no entanto, é simplesmente porque
é confrangedor para os decisores ter de admitir o erro: porque o sistema de
decisão está concentrado e a responsabilidade não é socialmente partilhada.
Acredito que há
um modelo melhor de organizar a tomada de decisão política: a validação das
ideias pelo teste, crítica mútua, e partilha de conhecimento. Isto é a
concorrência no seu melhor: não a concorrência entre pessoas, mas entre ideias.
É comum no empreendedorismo de ponta e na ciência, que formam comunidades de
partilha de conhecimento; e é isto que mantém as sociedades tecnologicamente
avançadas literalmente sobre rodas. Como poderia então funcionar esse modelo alternativo
de validação empírica em política? De certa forma, já está a funcionar. As
contra-elites políticas emergentes actuais, feitas de cidadãos profissionais
qualificados em vez de políticos profissionais desqualificados, são densas de
conhecimento científico e sequiosas de transparência; são capazes e
interessadas em envolver-se em debate aberto com base na evolução e acumulação
constantes do conhecimento e na sua utilização para avaliar as consequências de
políticas alternativas. Recusam aceitar avaliações ideologicamente fechadas, e
exigem conhecer os factos e fazer as suas próprias avaliações. E isto tanto é
verdade para questões económicas, sociais, como ambientais. Foi isto que me
trouxe para o envolvimento na política, e foi isto que me trouxe para o LIVRE /
Tempo de Avançar* enquanto plataformas para o debate e intervenção.
* O autor é
candidato às Primárias deste partido/movimento
Dealing with known
unknowns: For a political culture of shared knowledge
Politics, in its most
essential meaning, is the set of practices by which a polis – or a state that
corresponds to a community – arrives at decisions that help control its fate.
As such, it is defined not only by struggles over resources and power, but also
by the ability of those involved in it to foresee the consequences of their
actions. It derives not only from moral judgement, but also from knowledge. And
knowledge is always limited. In the famous words of the infamous Rumsfeld, we
deal not only with known knowns (things we are sure we know) and unknown
unknowns (things we have no clue exist or will exist) but with many known
unknowns (things we would like to know but know we don’t). In political
decision-making, most of the known unknowns refer to the future consequences of
decisions (i.e. of policies): if we do x, how much will we obtain of y? And
what other consequences will there be?
Because a large part
of political struggle is based on differences in moral judgement (i.e. what is
‘fair’), there is great pressure to at least appear to stick consistently to
policies. But policies are rarely direct expressions of moral principles, but
rather means to achieve some higher value (productivity, wealth, distributive
fairness, social harmony, etc.). And policies that seem to be well-designed to
achieve a specific end all too often do not have the expected results, or even
have negative results. . Unfortunately,
in the political world, the empirical (social) consequences of policies are far
too lightly assessed and, when they are assessed in detail, the results are not
always open to public scrutiny and discussion. Sometimes, this is because
policies have been specifically designed to further some private interests at
the expense of the public interest. In many other cases, however, it is simply
because it is galling for decision-makers to admit to error: because the
decision-making system is concentrated and there is no sharing of social
responsibility.
I believe there is a
better way to organize political decision-making: the empirical validation of
ideas through testing, mutual critique, and sharing of knowledge. This is
competition at its best: not competition between people, but between ideas. It
is common in cutting-edge entrepreneurship and in the scientific communities,
which form communities of shared knowledge. This is what keeps knowledge
advancing and technologically advanced societies, to put it bluntly, rolling
on. So how could the alternative model of empirical validation work in
politics? In a certain sense, it is already working. The emergent political counter-elites,
consisting of citizens who are qualified professionals rather than of
unqualified professional politicians, are heavy on scientific knowledge and
thirsty of transparency; they are able and willing to engage in open debate
based on ever-evolving, cumulative knowledge and its use to assess the consequences
of different policy alternatives. They refuse to accept ideologically closed
assessments, and demand to know facts and make their own assessments. This is
true for economic, for social, and for environmental issues. This is what
brought me to involvement in politics, and this is what brought me to LIVRE and
now Tempo de Avançar* as platforms for debate and intervention.
* The author is a candidate
in the primary elections of this party/movement
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