Monday, 7 December 2015

Boris Vian e a descontrução da identidade racial

Há romances que parecem arrumar-se numa prateleira de género. Mas afinal, das suas páginas escritas de forma enganadoramente simples – exprimindo os sentidos mais orgânicos do protagonista – surge a revelação que o autor nos manipula para bascular o sentido que damos às coisas. Irei Cuspir-vos sobre os Túmulos, de Boris Vian (1946), é um desses. Policial erótico, roman noir? A velha edição portuguesa da Europa-América (que li) apresenta na capa a imagem de uma perna feminina onde se enlaça um revólver. A versão original, em francês, é apresentada como uma mera tradução do inglês, cujo autor – afro-americano – se chamaria Vernon Sullivan. Mas este é um romance que funciona como um verdadeiro jogo de máscaras sobre a identidade: a sua enquanto género literário, a do autor, e a do protagnonista. Vian, francês, apresenta o autor como afro-americano. O protagonista, Lee Anderson, aparentemente branco, é ‘octaroon’ (um oitavo de descendência negra), o que nos EUA de então significava ‘negro’. Em ambos, a negritude, invisível, está por dentro – num por opção, noutro por herança. Note-se que Lee é também o nome do general sulista da guerra civil (branquitude); e Anders/son pode ser lido em alemão como ‘filho de outrém’ (a alteridade negra).

Lee chega a uma cidadezeca do Sul com o segredo da sua identidade racial, uma carta que lhe obtém emprego numa livraria, e sede de vingança contra brancos racistas em geral pelo assassinato de um dos irmãos na sequência de um romance com uma branca. Instala-se como branco e, no calor do Verão, envolve-se com os (e sobretudo as) jovens locais, em banhos de rio e festas, com música, alcóol, e muito sexo. A violência encontra-se sempre latente, tanto na vivência primitiva e irreflectida da juventude, como pela falta de laços afectivos reais; quando irrompe em tragédia, cumprindo a vingança, esta parece natural, como uma forma de estar.

Aparentemente, então, este é um romance policial, erótico, e de cordel. Aparentemente, é Lee quem tem um problema com a sua identidade, um segredo que, na tradição clássica dos policiais, explicaria o seu motivo. Aparentemente, os desejos primitivos e as lealdades primitivas comandariam as paixões no dia-a-dia como no crime. Mas o que senti ao ler é que isso são máscaras ténues, por trás das quais está uma mensagem mais fundamental: um ataque sofisticado ao segregacionismo pela desmontagem da sua lógica de identidade social: para Vian, Lee não se sente especialmente branco nem negro, e não tem nenhum problema psicológico de identidade com isso. O problema de Lee não é como ele se sente na sua pele, mas sim como é que os outros o vêm, e que consequências isso tem; o problema de identidade social é o do policiamento das relações ditas raciais pelos brancos do Sul, e é dessa violência que surge, naturalmente, a violência de Lee. Ao contrário da dos brancos, assume uma crueza mais essencial: porque a família não está na raça, e não é a raça que é fundamental; mas a raça pode estar na família, e a família, sim, é fundamental. 

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